Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico que cria um dos maiores mercados do mundo
Após mais de duas décadas de negociações marcadas por avanços lentos, impasses políticos e resistências internas em ambos os blocos, o Mercosul e a União Europeia deram neste sábado (17/janeiro) um passo decisivo para a consolidação de uma das maiores parcerias econômicas do planeta. Representantes dos dois blocos assinaram, na capital paraguaia, o documento final do acordo de associação birregional, que envolve cerca de 700 milhões de pessoas e responde por aproximadamente 25% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial.
A cerimônia ocorreu no início da tarde no Gran Teatro “José Asunción Flores”, no Banco Central do Paraguai, e reuniu autoridades de alto escalão da América do Sul e da Europa. Embora a assinatura formal tenha sido realizada pelos ministros das Relações Exteriores dos países do Mercosul e pelo comissário europeu de Comércio, o evento contou com a presença da maioria dos chefes de Estado sul-americanos, além das principais lideranças da União Europeia.
Considerado por governos e analistas como um marco geopolítico e econômico, o acordo estabelece uma ampla zona de livre comércio, prevê a eliminação progressiva de tarifas, harmoniza regras regulatórias e amplia a cooperação política e institucional entre os dois blocos. A expectativa é que o tratado reconfigure cadeias produtivas, estimule investimentos e reposicione tanto o Mercosul quanto a União Europeia em um cenário internacional marcado por tensões, protecionismo e disputas estratégicas.
Cerimônia reúne líderes sul-americanos e europeus
Estiveram presentes à solenidade os presidentes Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia), Yamandú Orsi (Uruguai), José Raúl Mulino (Panamá) e Santiago Peña (Paraguai), anfitrião do encontro e presidente pro tempore do Mercosul. Pela União Europeia, participaram a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa.
A ausência mais notada foi a do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), único chefe de Estado do Mercosul que não compareceu ao evento. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Lula justificou sua ausência alegando que não estava inicialmente prevista a participação dos presidentes na cerimônia de assinatura e aproveitou compromissos previamente agendados no Rio de Janeiro com lideranças europeias para não viajar a Assunção.
Nos bastidores diplomáticos, a decisão também foi interpretada como uma forma de evitar um encontro direto com o presidente argentino Javier Milei, com quem Lula mantém uma relação marcada por divergências políticas e ideológicas. Ainda assim, autoridades paraguaias e europeias fizeram questão de ressaltar o papel do Brasil — e de Lula — na retomada das negociações e na viabilização do acordo nos últimos meses.
Assinatura formal pelos chanceleres
Apesar da presença dos presidentes, a assinatura do documento ficou a cargo dos ministros das Relações Exteriores dos países do Mercosul: Rubén Ramírez Lezcano (Paraguai), Pablo Quirno (Argentina), Mauro Vieira (Brasil), Fernando Aramayo (Bolívia), Mario Lubetkin (Uruguai) e Javier Martínez-Acha. Pela União Europeia, o acordo foi assinado pelo comissário de Comércio, Maroš Šefčovič.
Segundo o governo paraguaio, a decisão de delegar a assinatura aos chanceleres foi tomada semanas antes da cerimônia, uma vez que, no caso da União Europeia, os ministros são os representantes formais autorizados a firmar esse tipo de tratado internacional.
Milei celebra acordo e defende agenda de abertura
Ao discursar, o presidente argentino Javier Milei classificou o acordo como “o maior logro da história do Mercosul” e defendeu que o bloco avance em uma agenda mais agressiva de abertura comercial. Fiel ao seu discurso liberal, Milei afirmou que a Argentina continuará negociando acordos bilaterais com outros países, independentemente do ritmo adotado pelo Mercosul.
“A Argentina não se detém neste acordo. Precisamos ser mais dinâmicos e acelerar nossa integração com a economia global”, afirmou. Segundo ele, o governo argentino seguirá buscando parcerias com países como Estados Unidos, Japão e Emirados Árabes Unidos.
Apesar de elogiar o avanço do tratado, Milei fez críticas a setores da União Europeia que defendem a inclusão de salvaguardas ambientais e comerciais adicionais. Para o argentino, essas cláusulas podem “desnaturar” o espírito do acordo e criar exceções que enfraquecem os compromissos assumidos.
O presidente também anunciou que enviará o acordo ao Congresso argentino durante as sessões extraordinárias previstas para fevereiro, com o objetivo de acelerar sua ratificação. Segundo fontes do governo, a implementação exigirá ajustes técnicos e regulatórios, incluindo normas de origem, procedimentos de certificação e adaptação dos regulamentos industriais aos padrões acordados com a União Europeia.
Paraguai destaca integração em mundo instável
Como anfitrião, o presidente paraguaio Santiago Peña adotou um tom conciliador e destacou o valor simbólico e estratégico do acordo em um cenário internacional instável. Em seu discurso, defendeu maior integração entre Europa e América do Sul como resposta a um mundo “complexo, instável e perigoso”.
“Europa e América do Sul precisam caminhar juntas para oferecer uma alternativa baseada em cooperação, integração e humanidade”, declarou. Peña também fez questão de reconhecer publicamente o papel desempenhado por Lula no processo de negociação, o que gerou um dos momentos mais comentados da cerimônia: o presidente argentino permaneceu sentado e não aplaudiu as menções ao líder brasileiro.
União Europeia vê acordo como movimento geopolítico
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou que o tratado consolida a posição da União Europeia como principal investidor estrangeiro no Mercosul e traz benefícios diretos para cerca de 60 mil empresas europeias. Segundo ela, o acordo vai além do comércio e tem forte dimensão estratégica.
“Estamos criando uma plataforma para trabalhar juntos em desafios globais, desde a proteção ambiental até a reforma das instituições internacionais”, afirmou. Von der Leyen também ressaltou que a parceria permitirá à Europa diversificar fornecedores estratégicos em um contexto de competição global crescente, reduzindo dependências externas.
O que prevê o acordo Mercosul–União Europeia
O acordo de associação entre Mercosul e União Europeia é abrangente e inclui três pilares principais: comércio, cooperação política e diálogo institucional. No eixo comercial, prevê a eliminação progressiva de mais de 90% das tarifas bilaterais, além da redução de barreiras não tarifárias e da harmonização de regras em áreas como investimentos, propriedade intelectual, serviços, compras governamentais e padrões sanitários e técnicos.
Para os países do Mercosul, o tratado abre acesso preferencial a um dos mercados mais ricos e exigentes do mundo, beneficiando especialmente setores como agronegócio, mineração, energia e alimentos processados. Já para a União Europeia, o acordo amplia sua presença na América do Sul e fortalece cadeias de suprimento em áreas consideradas estratégicas.
Estima-se que empresas europeias economizem até 4 bilhões de euros por ano com a redução de tarifas, enquanto os fluxos de investimento estrangeiro direto da Europa para o Mercosul podem dobrar ao longo da próxima década.
Impactos esperados para a Argentina e o Mercosul
Segundo estimativas da chancelaria argentina, as exportações do país para a União Europeia podem crescer 76% nos primeiros cinco anos de vigência do acordo e até 122% em um horizonte de 10 anos. O valor exportado poderia saltar de US$ 8,6 bilhões em 2025 para mais de US$ 19 bilhões em uma década.
Setores como energia, mineração e projetos ligados ao lítio, cobre e hidrocarbonetos estão entre os que devem registrar maior dinamismo. No entanto, analistas alertam que segmentos industriais menos competitivos, como têxteis, calçados e metalmecânica, enfrentarão maior concorrência de produtos europeus.
Desafios, resistências e próximos passos
Apesar da assinatura, o acordo ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos Congressos nacionais de todos os países do Mercosul para entrar em vigor. Na Europa, países como França e Áustria mantêm reservas, especialmente por preocupações ambientais e com o impacto sobre agricultores locais.
No Mercosul, a ausência de uma institucionalidade supranacional forte exige ratificações individuais, o que pode alongar o processo. Como alternativa, discute-se a possibilidade de um acordo interino que permita a aplicação imediata da parte comercial do tratado, enquanto os demais capítulos seguem em tramitação.
Especialistas avaliam que o sucesso do acordo dependerá da capacidade dos governos de implementar políticas de adaptação, apoiar pequenas e médias empresas e cumprir exigências ambientais, como regras de rastreabilidade, combate ao desmatamento e respeito a direitos trabalhistas.
Um acordo com peso histórico
Após mais de 25 anos de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia surge como um dos movimentos mais relevantes do comércio internacional recente. Em um mundo marcado por conflitos, fragmentação e disputas geopolíticas, a parceria sinaliza uma aposta na integração, no multilateralismo e na cooperação entre regiões historicamente ligadas por laços políticos, econômicos e culturais.
(Fonte: Gazeta Brasil)












