Quem somos quando as máquinas pensam?
Por: (*) João Ulysses Laudissi
Miguel Ângelo Laporta Nicolelis é médico e neurocientista brasileiro, reconhecido internacionalmente por suas pesquisas pioneiras na área de interfaces cérebro-máquina. Seus estudos abriram caminho para que próteses e dispositivos robóticos fossem controlados pela atividade cerebral.
Em seu livro Além do Nosso Eu, Nicolelis apresenta uma visão esclarecedora sobre o cérebro humano. Para ele, a mente não está limitada ao corpo físico. O cérebro é descrito como um sistema dinâmico, plástico e coletivo, capaz de se expandir por meio das relações sociais, culturais e tecnológicas. Nessa perspectiva, o “eu” não é algo fixo e isolado, mas uma construção biológica e cultural que ultrapassa os limites individuais.
O ser humano é resultado de uma inteligência compartilhada, moldada pela convivência e pela capacidade do cérebro de integrar o mundo ao seu redor, pois o cérebro humano evoluiu para funcionar em rede. Daí resulta que a inteligência decorre da interação entre muitos cérebros ao longo da história.
O cérebro, conforme nos faz entender o autor do livro, não é linear, não opera em código binário e não é um sistema fechado. Isso nos leva a perceber que, quando a identidade humana é reduzida a um algoritmo, surge um risco: se o ser humano for apenas código, poderá ser substituído.
O livro é digno de ser lido e seu rico conteúdo, estudado, uma vez que está tecnicamente repleto de relatos detalhadamente apresentados, o que permite compreender que o cérebro consegue incorporar ferramentas externas como se fossem extensões naturais do próprio corpo. Isso mostra que a percepção do “eu” é mais flexível do que se imagina.
A partir daí, surge uma distinção importante: enquanto o ser humano constrói significado, a máquina pensante aprende padrões e pode imitar a linguagem, produzir muitas coisas; mas, convenhamos, não sente dor, não tem expectativas nem consciência da própria finitude. E é justamente a consciência da dor da finitude que confere ao ser humano senso de urgência, drama existencial e profundidade de identidade.
Portanto, a máquina pensante não diminui o ser humano; pelo contrário, revela algo importante. Muitas tarefas executadas pelo ser humano, na verdade, são repetições sofisticadas de padrões.
Diante desse cenário, o futuro talvez valorize menos a capacidade de calcular e mais a capacidade de interpretar, criar significado, assumir responsabilidades e dialogar. A tecnologia pode ampliar as capacidades cognitivas humanas, mas não pode substituir a condição existencial do ser humano.
O livro provocou, pelo menos em mim, um alerta. Existe o risco de o próprio ser humano passar a agir como algoritmo. Isso acontece quando decisões morais são delegadas a sistemas automatizados, quando opiniões são moldadas por métricas digitais ou quando a personalidade é ajustada para atender às expectativas das redes sociais. Nessa situação, o “eu” deixa de ser fruto de reflexão e passa a ser mera reação automática. Isso não representa evolução, mas empobrecimento.
Se o ser humano aceitar que é apenas processamento de dados, sua substituição será apenas uma questão de eficiência. Porém, se reconhecer que é consciência histórica, relacional e situada no mundo, a máquina pensante será apenas ferramenta — jamais essência.
O desafio contemporâneo está colocado: o ser humano está disposto a preservar sua identidade ou permitirá que ela seja entregue, pouco a pouco, à lógica das máquinas?
Retomando a pergunta inicial, talvez a resposta seja esta: a máquina pensante não ameaça a identidade humana porque pensa; ela a ameaça quando o ser humano deixa de pensar.
(*) Engenheiro, especialista em treinamento industrial e professor.












