O Brasil que ainda está entre nós

 Por: (*) João Ulysses Laudissi

        Há livros que apenas contam histórias. Outros fazem a gente enxergar coisas que estavam ali o tempo todo, mas que não percebíamos. Os meus romanos: alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil, de Ina von Binzer, é um desses.   Escrito em forma de cartas no final do século XIX, o livro poderia ser visto só como o relato de uma estrangeira vivendo no Brasil. Mas ele vai muito além disso.

        Não é apenas uma descrição — é quase um retrato profundo da sociedade da época.

        Quando chega ao Brasil, Ina encontra um país marcado não só pela escravidão como sistema, mas por uma forma de pensar. Ela percebe uma sociedade muito hierarquizada, onde a autoridade não é questionada e onde o trabalho não é valorizado como deveria.

        A escravidão acabou na lei, mas a forma de pensar das pessoas não muda de um dia para o outro. E é aí que o livro deixa de falar apenas do passado e começa a dialogar com o presente.

        Ainda hoje, é possível reconhecer ambientes em que obedecer é mais importante do que pensar, onde as pessoas têm medo de tomar iniciativa e onde liderar é confundido com mandar. Os nomes mudaram, os discursos ficaram mais bonitos, mas algumas práticas continuam as mesmas.

        Como educadora, Ina também enfrenta dificuldades. Ela tenta aplicar métodos europeus de ensino, mas encontra resistência, falta de disciplina e pouco compromisso com a educação. Isso mostra um problema que ainda vemos hoje: acreditar que trazer ideias de fora é suficiente para mudar a realidade.    

        Muitas vezes, adotamos métodos modernos, falamos em inovação, exibimos certificados — mas, no dia a dia, pouca coisa realmente muda. Outro ponto que chama atenção é o comportamento da elite da época.

        Havia um desejo de parecer moderna e refinada, como na Europa, mas, ao mesmo tempo, mantinham práticas atrasadas. Ou seja, a aparência evoluía, mas a essência continuava a mesma. Esse contraste entre discurso e prática não desapareceu. Ele apenas ficou mais discreto — e, por isso, mais difícil de perceber.

         Ina também observa relações marcadas por uma mistura de afeto e controle. Havia proximidade, mas sem verdadeira autonomia. Esse tipo de relação ainda existe hoje, especialmente em ambientes que se dizem “familiares”, mas que evitam regras claras e critérios justos. Nesse caso, o excesso de informalidade acaba prejudicando tanto os resultados quanto as pessoas.

        Talvez a maior contribuição de Ina seja o fato de ela olhar tudo isso de fora. Por não estar acostumada com aquela realidade, ela percebe coisas que os próprios brasileiros já consideravam normais. E isso nos ensina algo importante: quando estamos muito acostumados com uma cultura, deixamos de enxergar seus problemas. Sem comparação, não há percepção. E sem percepção, não há mudança.

        Ler Os meus romanos hoje não é apenas conhecer o passado. É uma oportunidade de refletir sobre o presente. Não para julgar, mas para entender o quanto certas ideias e comportamentos ainda permanecem entre nós.

        O Brasil que Ina conheceu não ficou totalmente para trás. Em muitos aspectos, ele apenas mudou de forma. E talvez o primeiro passo para mudar de verdade seja reconhecer isso.

(*) Engenheiro, professor e ex-diretor no Sistema SENAI-SP