Côncavo e Convexo – As duas curvaturas do ser humano

Por: (*) João Ulysses Laudissi

        Côncavo Quando colocamos uma colher diante dos olhos e a observamos da direita para a esquerda, percebemos uma simbologia silenciosa. A visão do lado direito da colher revela o côncavo: o espaço que acolhe, recebe, sustenta e protege o conteúdo. Já observada pelo seu costado, apresenta a forma convexa: voltada para fora, projetada ao mundo, como quem avança, age e transforma. Talvez exista nisso uma metáfora da condição humana.

        O convexo da colher lembra a força da ação. É a parte que abre caminhos e separa os alimentos. Sua forma externa sugere expansão, movimento e presença. O convexo fala do impulso necessário para existir no mundo. Afinal, viver também exige coragem para sair de si mesmo.

        A parte côncava da colher, porém, ensina outra dimensão da vida. Ela não empurra: ela recebe. É a forma do abrigo, do acolhimento e da escuta. O lado côncavo é o que ampara uma lágrima, recolhe o alimento, oferece cuidado e sustenta aquilo que é frágil.

        Sua curvatura para dentro lembra que nem toda força está no ataque; muitas vezes, a verdadeira grandeza está na capacidade de conter, compreender e proteger.

        Entre o convexo e o côncavo existe uma lição de equilíbrio. O ser humano não foi feito apenas para projetar-se ao mundo, nem somente para recolher-se dentro de si. Há momentos em que precisamos ser convexos: firmes, decididos e atuantes. E há momentos em que precisamos ser côncavos: receptivos, sensíveis e humanos. Curiosamente, nenhuma das partes da colher é completa sozinha. A parte convexa sem a côncava torna-se dureza sem afeto.

         A parte côncava sem a convexa pode transformar-se em passividade sem ação. Mas, quando ambas trabalham juntas, surge a plenitude do gesto humano: a capacidade de agir sem perder a ternura e de acolher sem abandonar a firmeza. Talvez por isso as colheres escondam um simbolismo tão profundo na história da humanidade. Elas revelam que viver é aprender o movimento entre o exterior e o interior, entre construir e acolher, entre transformar o mundo e também permitir que o mundo transforme a nós mesmos.

(*) – Engenheiro,  Professor e ex-diretor do Sistema SENAI-SP